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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

História: Como se contava o tempo?

BREVE HISTÓRIA DA CONTAGEM DO TEMPO




Desde que nascemos somos inseridos numa cultura que parece escrava do tempo. O ser humano é mesmo fascinado por essa “coisa”, que não podemos definir ao certo. Na realidade, diante da sociedade dita cada vez mais moderna o tempo se tronou uma obsessão, quando não uma opressão.
 Antigamente não se media nada, depois contou-se os dias, em seguida as semanas, meses e anos e nesse meio tempo as horas já haviam sido inventadas. Hoje contamos os minutos, segundos, milésimos e já existem os ioctossegundos, a menor unidade de tempo existente até agora. O ioctossengundo é representado pela fração 10-24, ouo número 1 antecedido por 24 zeros!
Pode-se definir tempo como um sistema de medições usado para sequenciar eventos, para comparar suas durações, seus intervalos, e para quantificar o movimento de objetos. A palavra também é utilizada para se referir aos fenômenos da natureza, o que mostra as dificuldades em defini-la. Porém, como a religião, a filosofia e as variadas ciências possuem definições próprias, o conceito de tempo é um dos mais problemáticos de se definir, não havendo consenso universal. Etimologicamente, a palavra deriva do latim tempus, relativa às estações do ano.
A história do tempo se confunde com a história dos dias, que embora relacionados, não são a mesma coisa. O tempo é a medida e o dia, a noite ou as estação, a duração. Mas quando e porque começamos a contá-lo e medi-lo? E qual a sua finalidade? Essas são apenas duas de inúmeras outras perguntas que podem surgir diante dessa temática. Nesse texto tentarei respondê-las através de uma breve (na realidade brevíssima!) história das contagens do tempo, melhor dizendo dos dias me detendo nos Tempos Antigos. Dessa forma encerro este texto na chamada Reforma Juliana do calendário romano. Em outra oportunidade retomarei a temática.
Para favorecer aos leitores que por algum motivo tenham pressa ou caso a escrita esteja cansativa, esse texto pode ser lido no todo ou em partes, conforme os seus tópicos, sem prejuízo de informação.
Tempo, esse desconhecido que nos fascina.
Possivelmente a descoberta da existência do tempo, ou do que viria sê-lo, tenha se dado com a percepção dos dias e das noites. Os homens antigos observaram que havia uma força que fazia as árvores perderem suas folhas, mas também fazê-las crescer novamente, fazia as flores desabrocharem e murcharem com determinada regularidade, e sabiam que essa mesma força trazia o dia e a noite. A essa força denominaram tempo. Essas observações levaram o homem a criar formas de medi-lo, pois sabiam que sua existência dependia de seus ciclos. E assim, também, nasceu o fascínio humano pelo tempo, fascínio esse que não é algo aleatório, mas uma coisa essencial para a sobrevivência da espécie humana.
Não se pode precisar quando o homem tenha aprendido a contar o tempo, mas ao fazer a revolução agrícola entre o nono e sétimo milênio antes da Era Cristã o homem já conhecia os ciclos naturais e isso levou ao desenvolvimento das primeiras civilizações, o que mostra a importância do tempo para os seres humanos.
Nesse período os homens estavam aperfeiçoando formas de medir e calcular o tempo. Isso só foi possível graças às observações astronômicas. Os sumérios, talvez os primeiros povos a observarem o cosmos, já possuíam um esquema planetário que contava doze planetas (contando como tal a Lua), cinco mil anos antes da “descoberta” dos planetas circunvizinhos. Conhecimentos básicos da relação entre a Terra, o Sol e a Lua foram necessários para o estabelecimento dos dias, das noites e das estações. Através dessas observações foram determinadas as semanas e posteriormente os meses e anos. Não por acaso, foram os sumérios que criaram a primeira ideia de calendário que conhecemos.
Os dias e seus nomes.
As primeiras medidas temporais foram justamente as do domínio do Sol e da Lua sobre a Terra. A este deram o nome de dia e aquele de noite, originalmente sem se preocuparem com a quantidade de horas que cada um possuía – em realidade essa medida ainda não existia. Vários povos se preocuparam em definir quando um começava e o outro terminava. Os judeus e muçulmanos, por exemplo, mediam e ainda medem o dia a partir dos crepúsculos, os romanos por sua vez, o contavam a partir da aurora, os egípcios ora de uma forma ora de outra e assim por diante, cada povo fazia da forma que lhes conviesse.
A observação solar levou à determinação dos dias e noites e as da Lua à determinação das semanas. Percebendo que a Lua apresentava variações na forma como se mostrava, o homem passou a medir quantos dias levava para que os ciclos se completassem,  observaram que cada fase demorava em média sete dias para se concluir, por isso originalmente a semana era chamada de septimana (sete manhãs). Os caldeus, babilônicos e outros povos do Oriente Médio assim procederam, com maior ou menor frequência, e também outros povos por influência destes – não se deve esquecer que os povos da chamada Antiguidade sempre estiveram conectados. Contudo, foi apenas no ano 325 da Era Cristã que a semana teve legalizada a sua duração de sete dias.
O nome dos dias correspondeu a critérios religiosos, por isso receberam nomes de deuses antigos. No ocidente ainda hoje assim se conservam, sendo o Português a única língua ocidental a alterar a nomenclatura original. Por “nomes originais” deve-se entender a classificação romana, que nomeou os dias do primeiro ao sétimo de acordo com a importância da divindade que emprestaria o nome proteção. Assim sendo, o primeiro dia foi consagrado ao Sol, o segundo à Lua, o terceiro ao deus da guerra, Marte, o quarto a Mercúrio, protetor do progresso e do comércio bem sucedido, o quinto a Júpiter, a Vênus o sexto e a Saturno o sétimo.
Tempos depois, para se livrar desses nomes, os cristãos aproveitaram o antigo costume romano de numerar os dias a partir do sábado. Dessa forma foram denominados de prima sabbati (domingo), secunda sabbati (segunda) e assim por diante até o sabbati (sábado). São Justino (100-165), porém, denominou o primeiro dia da semana de domingo, dies Dominica (dia do senhor), nome confirmando no ano 300 da Era Cristã, no Concílio de Elvira. Ainda no século IV, o papa Silvestre (285-335) confirmou essa forma de nomear os dias, mas determinou que não se numerasse o primeiro dia, domingo, nem o último, sábado.
Mas a questão dos nomes da semana no Ocidente ainda não estava concluída. Nos primeiros tempos da fé cristã a Páscoa era comemorada ao longo da semana em que essa data coincidia. O imperador Constantino (272-337), ordenou que nessa semana todos os dias fossem feriae (raiz da palavra feriado), dias dedicados às práticas religiosas. Como o feriae era o denominador comum a todos os dias da semana da Páscoa, era preciso dar um nome que os distinguisse, seguindo a determinação do papa Silvestre e utilizando o costume de numerar os dias, conservaram o dies Dominica e passaram a chamar os seguintes de secunda feriae, terça feriae, quarta feriae,quinta feriae, sexta feriae, e sabbati.
Com o tempo essa nomenclatura tornou-se de uso comum para todas as semanas ao longo do ano, se tornando um dos maiores exemplos de alteração prosódica por ação do uso popular da história. Essa nomenclatura foi empregada em todos os reinos cristãos, porém, somente se conservou no Português. Os demais idiomas ocidentais retomaram os antigos nomes romanos. Veja como exemplo a tabela abaixo:
Latim
Italiano
Francês
Espanhol
Português
Dies Dominca (Dias do Senhor)
Domenica
Demanche
Domingo
Domingo
Lunae Dies (Dia da Lua)
Lunedí
Lundi
Lunes
Segunda Feira
Maris Dies (dia de Marte)
Martedí
Mardi
Martes
Terça Feira
Mercurii Dies (dia de Mercúrio)
Mercoledí
Mercredi
Miércoles
Quarta Feira
Jovis Dies (dia de Júpiter)
Giovedí
Jeudi
Juevens
Quinta Feira
Veneris Dies (dia de Vênus)
Venerdí
Vendredi
Viernes
Sexta Feira
Saturni Dies (dia de Saturno)
Sabbato
Samedi
Sábado
Sábado
Algo diferente aconteceu nos idiomas Alemão e Inglês. Através da influência dos povos do Norte, a nomenclatura da semana foi adaptada com a união de referências nórdicas:
Dia
Alemão
Inglês
Origem
Domingo
Sonntag
Sunday
Dias do Sol
Segunda Feira
Montag
Monday
Dia da Lua
Terça Feira
Dienstag
Tuesday
Dia de Tyr
Quarta Feira
Mittwoch
Wendsday
Dia de Odin (Woden ou Wotan)
Quinta Feira
Donnerstag
Thursday
Dia de Thor
Sexta Feira
Fritag
Friday
Dia de Freyja
Sábado
Samstag
Saturday
Sabá (Alemão), dia de Saturno em inglês
Calendário, retrato das necessidades cotidianas do homem.
Antes de qualquer coisa, é preciso explicar que o nome calendário tem raiz na palavra latina calendarius (livro de conta diária ou de registro), que por sua vez originou-se de calendas, que correspondia ao primeiro dia dos meses romanos. Essa é a etimologia da palavra que utilizamos para descrever nosso sistema de contagem do tempo e por mais que ela seja utilizada para se referir aos sistemas de povos não latinos, não significa que eles os denominavam dessa forma.
O primeiro calendário de que temos registro teve origem na Mesopotâmia. Os sumérios criaram a primeira civilização humana que conhecemos. Por volta do ano 6500 antes da Era Cristã já haviam forjado a primeira capital política que o mundo conheceu, Eridu, a primeira cidade nitidamente religiosa, Nipur, e o primeiro empório comercial, Umma. Constituíram, portanto, uma nação plenamente organizada muito antes que qualquer outra civilização. Foi justamente no centro religioso da Suméria, Nipur, que surgiu o primeiro calendário.
Pode-se dizer, sem exagero, que o calendário foi criado por causa de um deus. Os sacerdotes de Nipur se preocupavam com o céu, onde o deus Enlil, representado na figura do início do texto, manifestava os seus desígnios e com o correr do tempo, esses religiosos se tornaram profundos conhecedores dos segredos do cosmos. Nomearam os astros celestes e seguiram sua rota no firmamento no decorrer do ano. Através disso passaram a relacionar o posicionamento dos astros com os acontecimentos cotidianos e assim criaram o primeiro calendário de que temos registro.
O espaço de tempo que levava para a repetição de dois fenômenos celestes foi dividido em doze partes fixas, e posteriormente foi adicionada uma ocasional para corrigir os atrasos da medição. Assim foram criadas as bases para o que seria chamado de Zoidiakos (palavra grega derivada de zoon, “uma criatura viva”, relativa a “animal”). O espaço de tempo entre uma e outra dessas frações obedecia a certa regularidade e assim formaram os meses que se repetiriam ao final do ciclo de doze. Assim nasceram os meses e consequentemente os anos.
Toda essa preocupação em relação à medição do tempo tinha finalidade prática e pode ser observada na nomenclatura que lhes foi dispensada. Os sacerdotes de Nipur nomearam os meses de: 1° o tempo do morador do Santuário; 2° o tempo de levar o gado para as pastagens; 3° o tempo de cozer os tijolos; 4° (nome incerto); 5° o tempo de por fogo no campo (preparando a terra para as plantações); 6° o tempo do festival em honra a Ishtar, deusa da fertilidade e da primavera (talvez por isso o festival vinha após a preparação das terras para as plantações); 7° o tempo do lugar sagrado (mês das peregrinações); 8° o tempo em que se abrem os canais de irrigação; 9° o tempo de cavar os campos da cultura (mês de arar a terra); 10° (incerto, relativo a um festival religioso); 11° o tempo de semear; 12° o tempo colher.
Além desses meses, os sacerdotes de Nipur criaram um mês intercalar para corrigir os atrasos do calendário, era o Dir. Se. Gur. Kud., inserido várias vezes para corrigir as medições. Esse sistema desenvolvido em Nipur era extremamente eficiente, possuindo até mesmo as correções periódicas, tal como fazemos atualmente com os anos bissextos.
Porém, como se pode observar era um calendário voltado à agricultura. Outras cidades, onde havia predominância de diferentes práticas, como as guerreiras e as comerciais, essas determinações dos sacerdotes de Nipur não foram muito bem aceitas. Cidades como Umma e Lagash, predominantemente comerciais, tinham necessidades dos mares, rios e estradas, por isso procuraram desenvolver outras formas de contar e marcar o tempo, embora a base determinada por Nipur tenha permanecido – como ainda hoje permanece.
Após as invasões dos acádios, povos de origem semita, liderados por Sargão I (a quem se credita a primeira ideia de império), os sumérios tiveram sua civilização destruída, mas seus costumes foram assimilados pelos invasores, sobretudo o calendário.
Diferentes povos desenvolveram semelhantes sistemas de contagem do tempo e todos com utilidade prática explícita. Os egípcios, por exemplo, perceberam que quando a estrela Sirius aparecia e brilhava mais intensamente durante as noites, trazia consigo as enchentes do Nilo, períodos de maior fertilidade. Notaram que demorava 365 dias e um quarto para que a enchente se repetisse, essa foi a base para a criação de seu calendário. Dividiram seu ano em 365 dias, mais 30 e conservaram 5 dias suplementares para as correções dos atrasos, aos quais os gregos nos legaram a nomenclatura, eram os epagômenos (relativo a suplementar). Os meses egípcios não tinham nomes, eram chamados de primeiro, segundo e etc., mas suas estações (três ao todo) nos dizem muito sobre a utilidade de seu calendário, eram elas: enchente, semeadura e colheita. Os egípcios não concebiam a semana, e tão pouco se preocupava com a contagem das horas.
A maior confusão nos calendários antigos foi a dos gregos. Contavam o ano sempre que o Sol mudava de posição no céu (solstício e equinócio) e a cada lua nova o mês se iniciava. Foi justamente na junção dos calendários lunar e solar que sua confusão começou. Como não conseguiram resolver o problema da contagem através das observações cosmológicas, recorreram à matemática. O resultado foi que estes decidiram que oito anos solares correspondia a 2.922 dias e oito anos lunares a 2.832. A diferença de 90 dias (três meses lunares) foi utilizada para equilibrar a contagem, sendo espalhados em épocas várias dos oito anos. Ao que parece eles se entendiam nessa contagem confusa!
Por fim o calendário romano. Os latinos possuíam originalmente um calendário lunar que compreendia 304 dias divididos em dez meses. Alguns desses meses (a exemplo do primeiro Martius de 31 dias) receberam nomes de suas divindades mais poderosas, a outros foram dispensados meros números ordinais.
Não é que os romanos e os demais povos que adotaram o ano de dez meses desconhecessem que eram doze os ciclos lunares, o que acontecia é que era um costume no centro europeu e em regiões de invernos rigorosos, que nos sessenta dias da estação fria não se realizassem trabalhos. Nessa “Estação Morta”, como era chamada, eram realizados apenas trabalhos intelectuais e burocráticos. Eram os dois meses de férias anuais!
Com a crescente expansão romana tornou-se preciso retirar do calendário os sessenta dias ociosos. Essa era a necessidade quando em meados do século VII antes da Era Cristã, o rei Numa Pompílio foi levado ao trono de Roma. Na lista dos feitos de seu reinado se encontra a incorporação dos dois meses de ócio, sendo criados os meses de Januarius (referência ao deus Janus, o de duas faces, que vê simultaneamente o passado e o futuro, o deus do começo), e Februarius (referência ao deus etrusco Februus, deus da morte e da purificação, talvez seja por isso que tenha sido designado para o último mês do ano, também o último do inverno). Dos últimos meses do calendário romano, passaram a ser os primeiros do Gregoriano.
A divisão das semanas romanas não era rigorosa. Os meses giravam em torno das três datas fixas dos meses, ascalendas (primeiro dia de cada mês), as nonas (quinto ou sétimo dia, a depender do mês) e os idos (décimo terceiro ou décimo quinto dia, de acordo com o mês). Finalmente no século I antes da Era Cristã, Júlio Cesar com ajuda do astrônomo egípcio Sosígenes, introduziu modificações no calendário, que se convencionou chamar de Calendário Juliano. Nele se conservaram os meses Januarius, Februarius e Martius (março). Quintilis foi substituído por Julius, homenagem a César, também o mês de seu nascimento e os demais permaneceram com os nomes antigos.
Posteriormente foi incluído o mês de Augustus (que significa divino) em homenagem ao imperador Augusto (que na verdade se chamava Otávio). Este não quis ficar atrás da importância de César, seu tio-avô, ao qual se homenageou com o mês de julho, por isso seu mês vem logo após este e também têm 31 dias, quando pela lógica de distribuição numérica deveria ter 30. O sexto mês continuou como homenagem a Juno (junho), setembro permaneceu como numeral, do latim, septem (sete), assim como outubro (octo, oito), novembro (novem, nove) e dezembro (decem, dez).
O ano romano começava em Março, devido à importância do deus da guerra, Marte, para aquela sociedade. Por isso as numerações que representam setembro, outubro novembro e dezembro não são correspondentes à ordem do Calendário Gregoriano, predominante no Ocidente. O mês de Abril é uma exceção à regra, a palavra deriva do latim aprilis, abrir, é uma referência a germinação. E maio é uma referência à deusa romana Bona Dea adaptação da deusa grega Maya, ambas representam a fertilidade.
A história do tempo e de sua contagem continua ao longo dos períodos seguintes, mas seria preciso muito espaço para descrevê-la, o que farei em outra oportunidade. Principalmente devido ao fato de que daqui para frente, o conceito de tempo recebe um caráter extremamente filosófico, especialmente após Agostinho de Hipona (354-430), e a criação de diversas ciências após o século XVI da Era Cristã, a coisa se complicou ainda mais. Por hora esse é o nosso ponto final.
Obsessivos não! Organizados laboralmente pelo tempo.
Os calendários são na verdade mais que formas de contagem do tempo, representam as necessidades dos homens do Mundo Antigo, conforme se pôde ver nas nomenclaturas dos meses e das estações. Serviam e servem ainda hoje para regular as funções sociais das pessoas, religiosa, cultural e laboralmente. Na Idade Média, por exemplo, os calendários pintados nos vitrais das igrejas e nos livros, marcavam os meses a partir das funções que os camponeses tinham que realizar, plantio, colheita, queimada e etc. Essa situação não mudou muito até os dias de hoje.
O tempo nos fascina, nos envolve e nos organiza. Bom exemplo disso são as datas nacionais. Os gregos datavam o começo de sua vida coletiva a partir das primeiras olimpíadas (776 antes da Era Cristã), os romanos a partir da fundação da cidade de Roma (cerca de 753 antes da Era Cristã), os hebreus a partir da criação do mundo (7 de outubro de 3.761 antes da Era Cristã), os muçulmanos a partir da hégira, a fuga do profeta Maomé para a cidade de Medina (16 de julho de 622 da Era Cristã). E nós os brasileiros datamos o início de nossa história a pátria de 22 de abril de 1.500!
Nos dias de hoje continuamos os trabalhos dos sacerdotes de Nipur, ou de povos ainda mais antigos, olhando para o cosmos e precisando cada vez mais as formas de medir o tempo. Chegamos ao absurdo dos ioctossegundos ou mesmo do googol (representado pela fração 10100), criado por Edward Kasner em 1938, número sem qualquer utilidade prática que serve apenas para explicar a diferença entre um número imenso e o infinito. O googol é um dos maiores números que podemos conceber e serve, também, para comparações temporais, por exemplo, nessa escala todo o tempo decorrido desde o Big Bang (entre 13,3 a 13,9 bilhões de anos), até hoje, representa 17×1039 ioctossegundos (nem consigo fazer essa conta em minha calculadora!). É algo inconcebível! Uma curiosidade, foi desse nome que se originou a marca Google, que representa infinitas possibilidades de busca.
A contagem do tempo se iniciou por causa das necessidades de sobrevivência, sua finalidade era estritamente cotidiana. Com o passar do tempo as sociedades humanas se fizeram mais complexas, exigindo maior precisão temporal. Assim sofisticamos nossas técnicas e métodos de contar o tempo, buscando dominá-lo, mas nos tornamos cada vez mais seus escravos.
Temos relógios em praças públicas, nos pulsos, celulares, microondas, geladeiras, computadores…, tudo isso para que não cheguemos atrasados. Mas para que não cheguemos atrasados onde? No trabalho? Se o capitalismo é tão meticuloso assim, será que os patrões se esqueceram que temos hora marcada para sair do emprego? Não, não creio que a culpa seja do capital, ele apenas se utiliza de nossa obsessão temporal. É de algo mais profundo, mas que ainda não sei explicar.
Talvez a contagem do tempo tenha se tornado um transtorno obsessivo compulsivo (TOC), virou uma patologia difícil de curar (se é que exista a cura, afinal sempre perguntamos as horas, não o dia, mês ou ano!). Sei penas de uma coisa, nossas vidas se transformaram em horas, minutos, segundos, milésimos que perdemos. Incrivelmente, sempre ouço as pessoas falando que perderam tempo, nunca que o ganharam! Afinal o que é o tempo? Como disse santo Agostinho, quando ninguém me pergunta eu sei o que é, mas quando alguém me pergunta, já não sei mais.
imagem tharles

[1] Graduado e mestrando em História pela Universidade do Estado da Bahia, bolsista CAPES (como as obrigações legais me forçam identificar!). Como não é um texto de caráter acadêmico, as referências foram omitidas. Os textos consultados afim de garantir a credibilidade das informações apresentadas foram: HERMANI, Donato. A história do calendário. São Paulo: Melhoramentos, 1993, especificamente os capítulos 2, 3, 4 e 7; Hilário Franco Júnio. O ano 1000. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, o capítulo I; AGOSTINHO.Confissões, XI, 14, 17. Trad. J. O. Santos e A. A. de Pina. São Paulo: Nova Cultural, 2004. Além dos sites:http://estranhamentegeek.blogspot.com.br/ para a definição de ioctossegundo; http://www.dicionario10.com.brpara a definição de epagômeno; http://www.chabad.org.br para a definição de Zodíaco; e pt.wikipedia.org/ para as informações sobre os deuses sumérios Enlil e Ishtar, além da definição da palavra calendário e dos nomes dos meses; http://origemdapalavra.com.br/palavras/tempo/ para a definição da palavra “tempo”. As consultas foram feitas entre os dias 15 e 29 de janeiro de 2013.

História: Como se contava o tempo?

http://www.areliquia.com.br/artigos%20anteriores/64Relogio.htm
O Relógio através do tempo

Relógio de Sol, de bolso, fabricado na França no século XVIII
No começo, a história do relógio se confunde com a do calendário, ambas remontam a uma época em que ainda não se sabia ler nem escrever. Hoje, todos sabem que relógio é o nome que se dá a qualquer instrumento destinado à medição do tempo, mas a maioria desconhece como o homem conseguiu descobrir um sistema de medida das horas, um processo que durou séculos. Acredita-se que o tempo começou a ser medido há cerca de 5000 anos.
Nossos ancestrais mais primitivos só tinham conhecimento do dia e da noite, ignorando completamente o correr das horas e suas divisões. Sabe-se que passaram a observar os movimentos do sol, da lua e das marés, baseando assim sua cronologia. Primitivamente, conforme nos diz a história, os primeiros relógios construídos e usados pelo homem foram os gnômons. Consistia em um obelisco que, iluminado pelo sol ou pela lua, projetava uma sombra, que se movia com o passar das horas e entre o seu ponto inicial e seu ponto final, havia um espaço que o homem fracionou, criando a divisão do tempo.
Se os gregos antigos achavam que as horas eram divindades mitológicas simbolizando as partes do dia, os babilônios e os chineses foram os primeiros a dividirem o dia em horas, só que, para eles, o dia possuía 12 horas, cada uma delas equivalente e 2 horas atuais.
O Relógio do Sol
Quadrante solar construído em 1890 na Holanda
"Amaldiçoem os deuses o homem que descobriu como diferenciar as horas; também aquele que neste lugar pôs o relógio do sol que repartiu os meus dias em bocadinhos". (Autor desconhecido)



Foram os egípcios e parte dos povos da Ásia ocidental quem primeiro dividiram o dia em 24 horas. O mais antigo instrumento de marcar as horas foi o "relógio do sol" que, acredita-se, foi inventado pelos babilônios, e tinha um funcionamento simples: uma haste vertical se projetava do centro de uma superfície circular, projetando uma sombra do sol para indicar a hora. Embora seja certo que o relógio solar tenha existido em época mais distante, como no Egito há 1500 anos a.C., a história registra o seu aparecimento na Judéia, pelo ano 600 a.C., quando o Rei Acaz mostrou a seus súditos um desses relógios. Anaximandro de Mileto em 380 a.C., aperfeiçoou este relógio criando o "quadrante solar". O mais antigo relógio de sol existente está exposto no Museu de Berlim, acredita-se que pertenceu ao faraó Tutmés III do Egito (1504-1450 a.C.). Na Grécia, Vitrúvio registrou 13 relógios de sol diferentes no século I a.C. Somente no século XVI este instrumento pôde ser calibrado, dando horas verdadeiras, operação que exigia conhecimentos combinados de geografia, astronomia, matemática e mecânica. O problema ocorria nos dias de chuva ou nublados, quando não se conseguia ver as horas.
Modelo de ampulheta
Nos castelos e palácios da Europa antiga, usava-se o "relógio de fogo", que consistia em uma corda com nós que queimavam a intervalos regulares. Outra forma de contar o tempo era através das velas marcadas, sistema usado pela nobreza européia; seis velas de 15 cm com espessura idêntica eram divididas com uma escala, e no seu conjunto demoravam 24 horas a consumir. Outra maneira de marcar as horas era usando o azeite colocado em recipiente de cristal ou vidro que, ao queimar, podia-se ver o líquido baixando de nível. Também era comum, nos conventos, o "monge-relógio", aquele religioso que, para informar o tempo que passava, recitava orações por determinado período.
Clepsidra
Um dos primeiros exemplares de relógio de bolso, contendo o ponteiro das horas. Alemanha, 1535
Como todas as formas de marcar as horas não eram confiáveis, o homem continuou a fazer novos experimentos. Foi assim que surgiu no Egito o "relógio de água", o Clepsidra, que consistia em um recipiente cheio de água com as paredes graduadas e um pequeno orifício para a água sair. Cada descida de duas graduações correspondia à passagem de l hora. O Clepsidra se difundiu por toda a Europa e Ásia, até o século XVI, quando era o mais exato medidor das horas sem sol. Um dos exemplares mais antigos deste relógio se encontra no Marrocos, na cidade de Fez. Ele foi construído em 1357, durante o reinado do sultão Bou Inania e por 100 anos marcou as horas das preces dos muçulmanos. A história dá a primazia da construção da Clepsidra de rodas dentadas a Arquimedes de Siracusa. A marcação de tempo era feita por intermédio de uma bóia que elevava consigo uma barra dentada e esta, por sua vez, movia uma engrenagem em cujo eixo situava-se o ponteiro indicador. O maior problema do relógio de água ocorria quando fazia muito frio e a água ficava congelada.
A Ampulheta
Raríssimo relógio de mesa, caixa de ébano, estilo romano. Londres, 1675. Avaliado em US$ 90 mil
Outro tipo de relógio muito utilizado foi o de areia, ou ampulheta. Inventado também pelos egípcios, seu funcionamento é simples: dois cones de vidro ligados por um pequeno orifício que regulava a passagem de areia colocada em uma das partes, marcavam determinado período de tempo. Depois era só virar o instrumento e repetir o processo. A ampulheta aparece no século VIII, e evoluiu com o fabrico do vidro que a tornou hermética, garantindo a fluidez da areia. Usava-se também pó de mármore moído, que era fervido em vinho e seco ao sol. Levada para a Europa, a ampulheta foi utilizada pelos soldados romanos para marcar a troca de guarda. Carlos Magno tinha uma ampulheta de 12 horas. Cristóvão Colombo usava uma de meia hora. 
Relógio de ouro com a foto do Imperador
D. Pedro II quando jovem, da sua própria
coleção (Museu de Petrópolis)
A medição mecânica do tempo teve origem nas ordens religiosas que tinham necessidades de regular os tempos de oração e de culto. Os primeiros relógios mecânicos não mostravam o tempo: faziam-no soar. No início eram maquinas movidas por pesos que tocavam uma campainha a intervalos regulares. Estes relógios de câmara, situados na cela do monge "guardião do relógio", eram denominados "horologia exiatoria". O monge chamava os outros para as orações tocando o sino da torre. Mais tarde montou-se uma máquina maior que ficava na torre, que fazia soar o sino sem necessidade do monge guardião, e que passou a anunciar as horas canônicas uniformizadas por São Benedito no século VI em sete tempos: 1) as "Matinas" (aurora / 4 badaladas); 2) a "Hora Prima" (nascer do sol / 3 badaladas; 3) a "Hora Tertia" (meio da manhã / 2 badaladas); 4) a "Hora Sexta" ou "Meridies" (meio dia / 1 badalada); 5) a "Hora Nona" (meio da tarde / 2 badaladas); 6) as "Vésperas" (por do sol / 3 badaladas) e 7) as "Completas" (anoitecer / 4 badaladas). Estes relógios eram sujeitos a calibragem para acompanharem a variação dos dias ao longo do ano, e as diferentes horas do nascer e do pôr do sol. A palavra inglesa "clock" (relógio não portátil), deriva do holandês "clojk" que quer dizer sino, que por sua vez em alemão se denomina "glocke". 
Dois relógios decorativos da coleção de D. Pedro II, hoje no Museu de Petrópolis
O Oriente estava mais adiantado e a história nos conta que o califa árabe Harun Al Rashid teria presenteado Carlos Magno com um relógio de bronze que batia as horas. Mas, foi na Europa que o relógio mecânico se desenvolveu.



Relógio mecânico
Raro e revolucionário relógio de ormolu com base de mármore. França, 1795. Ass. “Duval a Paris”
F48/RELÓGIO: Coleção de relógios de bolso das marcas Rigonaud (1790), John Le Roux (1770), Perrin Freres (1810), Eardley Norton (1790), Vacheron&Constantin (1840), Ilbery (1810) e Antoine Allier (1790)
A época das descobertas marítimas, que começou depois do fim da Idade Média, fez aumentar a importância do tempo para o homem, na sua corrida para o desconhecido. As técnicas mecânicas de fabricação do relógio foram aparecendo, havendo necessidade cada vez mais de precisão para dividir o tempo. Os marinheiros, que usavam as referências no céu, observando o sol, a lua, as estrelas e as constelações, com a descoberta dos oceanos viram-se obrigados a se localizarem por latitudes e longitudes. Para a medição da altura do sol, necessária para se determinar a latitude, era usada a Bestilha, ou Bastão de Jacob, adotado no ocidente em 1342. Este dispositivo já era usado pelos gregos (Dioptra) e pelos árabes (Kamal). Os portugueses usavam o quadrante e o astrolábio.
Até se chegar a uma máquina de medição das horas de luz e de escuridão num único dia de 24 horas iguais, foi um processo gradual baseado nos avanços introduzidos no "relógio de soar", e do aproveitamento do "escape" da máquina: dispositivo que interrompe regularmente a queda dos pesos, como um interruptor que alternadamente contem e solta a força da máquina, produzindo o "tique-taque" que se tornou a voz do tempo. A transição deu-se no século XIV, e a hora tomou um sentido universal e preciso, abandonando-se a "Hora Sazonal" em favor da "Hora Igual".
O primeiro relógio mecânico (que marcava o tempo) conhecido e que hoje se encontra no Museu de Ciência, em Londres, teria sido fabricado em 1386 por Henry de Vicky, encomendado pelo rei da França. Entretanto, ele foi instalado na Catedral de Salisbury, na Inglaterra. Era formado por duas engrenagens movidas por cordas e pesava cerca de 200 quilos. A partir dos grandes relógios mecânicos foram criados os menores para uso doméstico. As torres e vigias das igrejas tornaram-se torres de relógio, de onde soavam horas iguais para os serviços religiosos. A subida dos relógios às torres dos mosteiros e das igrejas tornou-os máquinas públicas e símbolos da prosperidade das comunidades. O relógio foi um serviço público anterior ao abastecimento de água. O primeiro mostrador tinha 6 divisões, que um único ponteiro percorria 4 vezes cada dia de 24 horas, e foi criado em 1344 por Jacopo de Dondi na cidade de Chioggia, na Itália. O ponteiro de minuto só apareceria mais tarde com o uso do pêndulo. Foi em 1582 que o cientista Galileu Galilei (1564-1642), ao observar a oscilação de um candeeiro na Catedral de Pisa, descobriu a aplicação do movimento pendular na fabricação do relógio, do que se aproveitou o holandês Christian Huygens para fabricar o primeiro relógio de pêndulo.
O tempo portátil
F48/RELÓGIO: Coleção de relógios de bolso das marcas Rigonaud (1790), John Le Roux (1770), Perrin Freres (1810), Eardley Norton (1790), Vacheron&Constantin (1840), Ilbery (1810) e Antoine Allier (1790)
A aplicação do pêndulo nos relógios fez reduzir o erro diário de 15 minutos para cerca de 10 segundos. Este maquinismo foi aperfeiçoado por Peter Heinlein, de Nuremberg, que substituiu o peso por uma cinta de aço que tinha a mesma função, o que permitiu a redução do tamanho das máquinas até chegar ao relógio de bolso. A invenção de Heinlein possibilitou um avanço na história da relojoaria, sendo criadas novas patentes de excelentes mecanismos. A peça que permitiu movimentar o ponteiro dos minutos foi chamada de "balancin", responsável pelo tique-taque dos relógios. A patente do relógio de bolso só foi registrada por Louis Recordon em 1780, em Londres.
Os relógios foram transformados em obras de arte nos séculos XVII e XVIII, os palácios e ricas residências da Europa ostentavam ricos relógios de parede, de coluna e de mesa, que além de marcar as horas serviam como objetos decorativos. No século XIX um conde polonês de nome Antoine Patek juntou-se ao relojoeiro francês Adrien Phillipe, criando uma marca de relógios que ficou famosa em todo o mundo: Patek-Phillipe. Considerado o que havia de mais perfeito e preciso na indústria da época, este relógio tinha clientes ilustres como a Rainha Vitória e o Czar Nicolau II, da Rússia, entre outros nobres e abastados do mundo. Considerado uma verdadeira inovação, em 1842 a fábrica do Patek-Fellipe criou o mecanismo sem chave para dar corda. 
Relógio de Sol antigo
O relógio de pulso só foi criado e patenteado no século XX. O inglês John Harwood registrou a invenção em 1924, e logo o novo modelo superou o relógio de bolso. Um pouco antes, em 1920, uma nova tecnologia, a aplicação de propriedades piezelétricas de cristais na fabricação de relógios. Em 1928, dois americanos, J.W. Horton e W.A. Morrison criaram o primeiro relógio a quartzo do mundo, reduzindo a margem de erro na medição de tempo para um segundo a cada dez anos. E as novidades não pararam, surgindo o cronômetro, o relógio a prova de água, com altímetro e fundímetro, barômetro e os modelos digitais. A tecnologia atômica veio para superar o relógio de quartzo, mas aí já não é mais história.

Coleção de relógios de pulso das marcas Patek Phiippe, Movado, Vacheron & Constantin e Cartier de meados do século XIX


História: Como se contava o tempo?

Desde que começou a plantar, há 10 mil anos, o homem marca a passagem do tempo

Dez mil anos atrás, os primeiros agricultores da África e do Oriente Médio começaram a contar o tempo em função das mudanças das estações. E notaram que o movimento dos astros estava relacionado a isso. Os babilônios e os gregos ligaram o ciclo da Lua à contagem do tempo – aliás, os primeiros já dividiam seu dia em 24 horas no século 5 a.C. Só que, como as estações do ano têm relação com o movimento da Terra em torno do Sol (e não da Lua em torno da Terra), ocorria uma defasagem de cerca de dez dias. Por isso, eles adicionavam um mês extra ao calendário de vez em quando.
Os egípcios foram os primeiros a usar o Sol para medir o tempo, há 6 mil anos – o calendário deles, de 3750 a.C., é considerado o primeiro da humanidade, com 12 meses de 30 dias e 5 dias adicionais para adorar os deuses. Era o Nilo que os auxiliava. Quando o rio atingia seu volume máximo, os egípcios sabiam que era verão. E, percebendo que o Sol completa um ciclo de um verão a outro, contaram os dias entre as cheias para marcar quantos dias tinha o ano.
Em Roma, as datas eram imprecisas até a época do romano Júlio César (100 - 44 a.C.), que fez algumas modificações no calendário egípcio. O que usamos hoje é o gregoriano, similar ao juliano. Já em alguns países do Oriente, como na China, os anos eram marcados pelos reinados. O espaço de tempo era determinado pelo período que o imperador permanecia no trono.

http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/como-se-contavam-anos-antigamente-434847.shtml